Você sabia? Eu já fui a pessoa mais poderosa deste mundo, nem mesmo os deuses podiam me deter; se eu conseguir recuperar meu corpo, poderei ressuscitar. E daí? Por isso... alguém escondeu meu cadáver!
A porta do quarto foi fechada suavemente; a chama da vela oscilava ao sabor do vento que entrava pelas frestas da janela, tão instável quanto o coração do pequeno menino.
— E-então… — o garoto, sujo e malvestido, olhava nervoso para o homem de meia-idade à sua frente, que sorria gentilmente, e gaguejou — Padre Ulro, o senhor pode mesmo me dar comida?
— É claro — respondeu Ulro, com um leve sorriso. — O Deus do Reno ama seus fiéis. Como seu servo, como poderia eu suportar ver vocês famintos e com frio?
— E-eu…
— Deixe isso comigo — Ulro se aproximou do menino, abrindo os braços como se fosse acolhê-lo. — Deixe tudo comigo, venha, tire suas roupas, deixe-me lavar sua impureza em nome do grande Deus do Reno, tornar você um dos seguidores de meu Senhor. Assim, nunca mais precisará passar fome ou frio, poderá ficar ao lado de meu Senhor, assim como eu.
Na visão do menino, o corpo de Ulro crescia, tornando-se cada vez menos amigável, e a expressão sorridente só aumentava seu terror.
Instintivamente, o menino quis recuar, mas ao entrar naquele quarto já não havia mais para onde fugir. Só pôde assistir, com os olhos arregalados, Ulro mostrar um sorriso demoníaco bem diante de si.
Ulro, por sua vez, estava satisfeito com a reação do garoto.
Por um breve momento, lembrou-se de si mesmo, muitos anos atrás, na mesma posição que o menino, diante de um padre que se aproximava cada vez mais.
Aquela lembrança o atormentou por anos, mas hoje tudo terminaria.
Porque os papéis se inverteram; agora, ele é quem detém o poder.