Eu não me importo nem um pouco com o modo como vivem as pessoas deste mundo, se estão bem alimentadas, se têm roupas quentes, se moram confortavelmente ou se possuem sonhos e esperanças. Não me interessa o que amam ou odeiam. Apenas, para alcançar as alturas celestiais, é necessário um sistema industrial avançado completo, uma rede de institutos de pesquisa, laboratórios de ciência dos materiais de última geração e um governo centralizado capaz de coordenar todos os departamentos. Isso requer incontáveis cidadãos livres de preocupações básicas, dispostos a oferecer suas riquezas, demanda milhões de intelectuais dedicando sua mente ao projeto, e dezenas de milhares de fornecedores de peças de precisão, entregando os melhores componentes. Em suma, é preciso um mundo próspero, uma civilização grandiosa para realizar tal feito. —Ian Um mundo renascido das ruínas. Uma era prestes a chegar ao fim. Um grupo de prisioneiros lutando sobre a terra, disputando poder e riqueza. Um jovem que contempla as alturas do céu. Os prisioneiros olham para fora pelas janelas do destino; quase todos fixam o olhar no solo. Apenas um ergue os olhos para as estrelas.
O clima em Porto Harrison era imprevisível; cidades tropicais são assim, pela manhã o céu podia estar limpo e, à tarde, desabava um temporal. Curiosamente, as pessoas de Porto Harrison também eram volúveis. Antes de adormecer, Ian era apenas uma criança inteligente e perspicaz; ao despertar, já era um renascido que havia rompido o véu do mistério do nascimento e recuperado as memórias da vida anterior.
“Minha cabeça dói...”
Deitado numa cama de madeira mal conservada, Ian abriu os olhos. Seus olhos de tom azul-esverdeado estavam turvos e desorientados, mas logo focaram na viga de madeira acima, já tomada pelo mofo.
O sol de julho deveria ser radiante, mas estava bloqueado por uma cortina grossa. O quarto era apertado, o ar, viciado. Cada inspiração fazia a dor latejar em suas têmporas, provocando zumbidos nos ouvidos, enquanto o odor levemente salino vindo do mar se misturava ao cheiro de madeira apodrecendo.
Era como se alguém tivesse passado quatro horas numa viagem de carro, enjoado, ao lado de uma mulher de meia-idade coberta com perfume barato e portando um forte cheiro de suor, falando sem parar ao seu ouvido.
A intensidade da dor, misturada ao desconforto, era tal que Ian sentia náuseas incontroláveis. Quis vomitar, mas o estômago estava vazio, nem sequer havia bile. Os lábios rachados, o ressecamento nos olhos, tudo indicava que ele não comia ou bebia havia dias; o corpo fraco e os membros sem forças representavam um perigo iminente, pois estava no limite de suas energias.
Mas precisava se levantar.
— A comida pode espera